Pegando na nossa conversa de café e no
teu post que só li posteriormente, andei a remoer, a remoer, a tentar perceber qual é minha real opinião sobre este assunto.
A verdade é que andamos todos meio perdidos. As relações deixaram de ser preto no branco, lógicas, e onde todos sabíamos que papel tínhamos que desempenhar (pelo menos em aparência). Desde que fomos admitindo que as relações podem admitir muitas formas, que podemos ter vários parceiros (um de cada vez, em princípio, mas vá isso sou eu que sou conservadora), desde que deixámos de ter medo de dizer à família, aos amigos e aos colegas de trabalho que o nosso casamento/qualquer outra coisa não é perfeito, fomos percebendo que não somos casos isolados. Que fazer uma relação resultar é um trabalho duro de partilha, de cedências e também de exigências mútuas. Que, ás vezes, não dá mesmo. E que ser feliz é importante. E que o reconhecimento que as coisas falharam não é vergonha nenhuma. Apesar de conhecer tantas e tantas relações que são um pavor, em que as pessoas se consomem a tentar ter aquilo que acham que deviam ter e que, por algum motivo que pensam só poder ser culpa própria, não conseguem.
Pois eu devo ser ou muito cínica ou pouco romântica ou um misto das duas. Não entro numa relação a pensar que se calhar não vai dar, mas também não entro de olhos fechados – acho que as probabilidades estão contra, e que vão acontecer problemas e discussões e chatices. Mais tarde ou mais cedo. E acho que temos dificuldade em reconhecer esta simples realidade como se fosse uma espécie de superstição: se entrarmos a achar que não vai resultar, o mais certo é que não resulte, pensamos. Por isso lá nos forçamos a acreditar que vai tudo ser um mar de rosas, até ao dia em que deixar de o ser.
O «a ver se dá» encaro-o como mais uma fase. Nunca ouviram uma avozinha a dizer que na altura dela se namorava à janela – essencialmente as pessoas nem se conheciam. Talvez o nosso problema seja andarmos demasiado tempo a ver se dá, demasiado tempo perdido em busca da pessoa perfeita (que não existe). Demasiado tempo a fazer as coisas da forma certa, convencidos de que sabemos qual é a forma certa, os passos a dar e quando dá-los…
Sempre fui muito selectiva nas minhas relações. Achei desde sempre que envolver-me com alguém só sentisse alguma coisa por essa pessoa. Sempre percebi que essa não era a forma como a minha geração (pelo menos grande parte dela) encarava a coisa, sobretudo durante a adolescência. Aos 16 anos experimentava-se o que havia à mão. A ver se dava. E se não desse não havia espiga. O próximo estava ali à esquina e as pessoas com trinta anos eram terrivelmente velhas. Eu costumava achar esse saltitar uma coisa terrível. Não me cabia na cabeça. Agora estou essencialmente nas tintas para a forma como o vizinho do lado vive, come, veste, tem sexo ou não tem. Ou esforço-me por isso – ui… que ainda me foge tantas vezes a língua para o corte e costura!
Hoje que somos todos adultos não vejo realmente porque não ver se dá. Acho menos perigoso agora que dantes. Se duas pessoas adultas, maiores e vacinadas, tão conscientes do que fazem quanto pode ser possível, decidem que querem ver se dá, isso não significa que não se gostam ou que não estão a ser honestas uma com a outra. Estão ainda assim a assumir um compromisso, mas sabem que pode não dar. Esperam que não aconteça mas reconhecem a possibilidade. E que não vem mal ao mundo se isso acontecer.