E lá fomos nós na minha primeira incursão numa capital europeia que não a nossa. Madrid. Três dias de maratona de museus em que, confesso, quando cheguei ao Reina Sofia, já olhei para a arte contemporânea com pensamentos sombrios do género eu estava bem era no quentinho do hotel em ver de estar aqui a ver desvarios artísticos… que roçaram perigosamente o se isto é arte eu vou ali e já venho. Devia ser o cansaço a falar.
Eu que sou uma clássica gostei mesmo foi do Prado. Entre holandeses, italianos e muitos, muitos espanhóis rendi-me numa das últimas salas ao génio de Goya. Percorri o museu entre explicações rápidas de História da Arte ao meu desgraçadinho companheiro numa descoberta de tantas e tantas imagens que conheci e estudei em livros. E eis que entre retratos de mecenas aristocratas e burgueses ou das realezas, temas religiosos, campestres e do quotidiano e até mulheres com roupa ou sem ela (ah espera… a desnuda não estava lá, para tristeza da minha companhia…hihi) tudo de uma virtuosidade fantástica, em composições perfeitas e ortodoxas, com a perspectiva mais dominada ou menos dominada, aparecem uma série de telas que revelam um mundo de gente desfigurada, de ar grotesco, em composições surpreendentes, pinceladas fortes, com uma paleta de cores sombria, num resultado arrepiante. Esta parte eu não conhecia da História da Arte, não. Bem me enganaram. Eram as pinturas a fresco (mais tarde transpostas a tela) que o pintor, já entradote nos anos e bastante doente, fez nas paredes da quinta onde vivia. Revelam um pintor furiosamente a despejar nas paredes os sentimentos, numa expressividade que me tocou mais que o virtuosismo de outras obras. Uma delas, para mim, a mais surpreendente: uma cabeça de cão emerge, solitária, numa tela em que o vazio ocupa o espaço todo… Suponho que é Arte quando algo nos incomoda e nem sabemos porquê.
(Em baixo: «Dois Velhos comendo a sopa» e «Perro semihundido»)
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1 comentário:
E por terra de italianos não escreves nada?
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